Regulação, interesses e dupla divulgação
distorções informacionais nas empresas elétricas brasileiras
DOI:
https://doi.org/10.16930/2237-766220263686Palavras-chave:
teoria da regulação, dupla divulgação, distorções informacionais, setor elétricoResumo
Este ensaio teórico tem como objetivo analisar como a dupla normatização contábil no setor elétrico brasileiro, estruturada pelos padrões societário (IFRS) e regulatório (MCSE/Aneel), produz distorções informacionais e pode favorecer práticas de captura regulatória em um ambiente institucional marcado por assimetrias e incentivos conflitantes. A originalidade do estudo reside na integração de três vertentes teóricas, Teoria do Interesse Público, Teoria Econômica da Regulação e Teoria da Captura, articuladas com a literatura contemporânea sobre qualidade da informação contábil, assimetria informacional e enforcement, oferecendo um enquadramento analítico que ainda é pouco explorado pela pesquisa em contabilidade regulatória no Brasil. A relevância da pesquisa decorre do papel estratégico do setor elétrico como infraestrutura essencial e da crescente dependência de informações contábeis para decisões tarifárias, fiscalização da prestação do serviço e monitoramento institucional, em um contexto no qual divergências normativas ampliam tensões entre Estado, empresas e usuários. Metodologicamente, adota-se o método reflexivo-argumentativo, apoiado em análise crítica da literatura clássica e atual, organizada em três eixos: fundamentos da regulação, efeitos informacionais da dupla divulgação e papel do enforcement. Os resultados evidenciam que a coexistência de padrões com finalidades distintas intensifica assimetrias informacionais, reduz comparabilidade, incentiva arbitragens contábeis e fragiliza a governança regulatória, sobretudo em ambientes com baixa capacidade fiscalizatória. O estudo contribui ao demonstrar que a contabilidade, longe de ser neutra, atua como mecanismo estratégico de geração de poder informacional, reforçando a necessidade de maior integração entre normas, incentivos e mecanismos de enforcement para assegurar transparência e proteção do interesse público.
Referências
Agência Nacional de Energia Elétrica. (2021). Resolução nº 933, de 18 de maio de 2021: Institui a Contabilidade Regulatória; aprova a estrutura do Manual de Contabilidade do Setor Elétrico (MCSE). https://www2.aneel.gov.br/cedoc/ren2021933.pdf
Andrade, J. M. C. de, & Martins, E. (2017). Desafios na política pública de mensuração dos ativos para a formação das tarifas no setor elétrico: Alguém deve ser beneficiado e alguém deve ser sacrificado? Revista Contabilidade & Finanças, 28(75), 344–360. https://doi.org/10.1590/1808-057x201703160
Becker, G. S. (1968). Crime and punishment: An economic approach. Journal of Political Economy, 76(2), 169–217. https://archiv.soms.ethz.ch/sociology_course/Lecture6/becker1968.pdf
Black, J. (2014). Learning from regulatory disasters. London School of Economics and Political Science. http://dx.doi.org/10.2139/ssrn.2519934
Cappellesso, G., Niyama, J. K., & Rodrigues, J. M. (2020). Influências da regulação na qualidade das informações contábeis no âmbito do mercado de capitais: Um ensaio teórico. Revista Universo Contábil, 16(2), 105–123. https://doi.org/10.4270/ruc.2020207
Ewert, R., & Wagenhofer, A. (2016). Effects of increasing enforcement on firm value and financial reporting quality. European Accounting Review, 25(1), 73–106. http://dx.doi.org/10.2139/ssrn.2815002
Ferreira, D. C., Lemes, S., & Lopes, A. B. (2021). Contabilidade societária x contabilidade regulatória: Value relevance das informações contábeis do setor elétrico. Contabilidade Vista & Revista, 32(2), 205–229. https://doi.org/10.22561/cvr.v32i2.6297
Flores, E., & Lopes, A. B. (2019). Decréscimo na relevância da informação contábil das distribuidoras de energia elétrica no Brasil no período pós-IFRS. Revista Brasileira de Gestão de Negócios, 21(5), 928–945. https://doi.org/10.7819/rbgn.v21i5.4023
Joskow, P. L. (2019). The challenges of integrating renewables in electricity markets. Oxford Review of Economic Policy, 35(2), 291–316. https://doi.org/10.1093/oxrep/grz001
Laux, V., & Stocken, P. C. (2017). Accounting standards, regulatory enforcement, and innovation. The Accounting Review, 92(2), 51–71. https://doi.org/10.1016/j.jacceco.2017.11.001
Levi-Faur, D. (2005). The global diffusion of regulatory capitalism. The Annals of the American Academy of Political and Social Science, 598(1), 12–32. https://doi.org/10.1177/0002716204272371
Meneghetti, F. K. (2011). O que é um ensaio teórico? Revista de Administração Contemporânea, 15(2), 320–332. https://doi.org/10.1590/S1415-65552011000200010
Musgrave, R. A. (1958). Classics in the theory of public finance. International Economic Association/Macmillan. https://desmarais-tremblay.com/Resources/Musgrave%20Peacock%201958%20Classics%20in%20the%20Theory%20of%20Public%20Finance.pdf
Peltzman, S. (1976). Toward a more general theory of regulation. Journal of Law and Economics, 19(2), 211–240. https://doi.org/10.1086/466865
Peltzman, S. (2022). “The theory of economic regulation” after 50 years. Public Choice, 193(1–2), 9–21. https://doi.org/10.1007/s11127-022-00996-0
Pigou, A. C. (1932). The economics of welfare (4th ed.). Macmillan. http://files.libertyfund.org/files/1410/0316_Bk.pdf
Schantl, L., & Wagenhofer, A. (2020). Deterrence of financial misreporting when public and private enforcement strategically interact. Journal of Accounting and Economics, 69(2–3), 101311. https://doi.org/10.1016/j.jacceco.2020.101311
Shleifer, A. (2005). Understanding regulation. European Financial Management, 11(4), 439–451. https://shleifer.scholars.harvard.edu/sites/g/files/omnuum10626/files/shleifer/files/02_eufm00121.pdf
Shleifer, A. (2010). Efficient regulation. In D. P. Kessler (Ed.), Regulation vs. litigation: Perspectives from economics and law (pp. 27–43). University of Chicago Press. https://www.nber.org/system/files/chapters/c11957/c11957.pdf
Souza, P. V. S., & Rodrigues Jr., M. M. (2024). Earnings management under corporate and regulatory standards in Brazilian electric power distributors. Revista de Contabilidade do Mestrado em Ciências Contábeis da UERJ, 29(3), 55–68. https://www.e-publicacoes.uerj.br/rcmccuerj/article/view/86262
Souza, P. V. S., Ribeiro, J. P. M., & Paulo, E. (2024). Organizational complexity and value relevance under the regulatory and financial standards of Brazilian electric power companies. Energy Policy, 186, 114000. https://doi.org/10.1016/j.enpol.2024.114000
Souza, P. V. S., & Paulo, E. (2025). Service quality and earnings management in Brazilian electricity distributors. Journal of Economics, Finance and Administrative Science. https://doi.org/10.1108/JEFAS-02-2024-0047
Stigler, G. J. (1971). The theory of economic regulation. The Bell Journal of Economics and Management Science, 2(1), 3–21. https://doi.org/10.2307/3003160
Thomas, D. W., & Thomas, M. D. (2022). Regulation, competition, and the social control of business. Public Choice, 193(1–2), 109–125. https://doi.org/10.1007/s11127-022-00989-z
Wood, A. J., Wollenberg, B. F., & Sheblé, G. B. (2014). Power generation, operation, and control (3rd ed.). Wiley.
Yandle, B. (2010). Bootleggers and Baptists in the theory of regulation (Jerusalem Papers in Regulation & Governance, Working Paper No. 9). The Hebrew University of Jerusalem.
Yandle, B. (2022). George J. Stigler’s theory of economic regulation, bootleggers, Baptists and the rebirth of the public interest imperative. Public Choice, 193(1), 23–34. https://doi.org/10.1007/s11127-021-00907-9
Zingales, L. (2017). Towards a political theory of the firm. National Bureau of Economic Research. https://doi.org/10.3386/w23593
Downloads
Publicado
Como Citar
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2026 Revista Catarinense da Ciência Contábil

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License.
Os direitos autorais para artigos publicados nesta revista pertencem ao(s) respectivo(s) autor(es), com direitos de primeira publicação cedidos para a Revista Catarinense da Ciência Contábil - RCCC. Em virtude de aparecerem nesta revista de acesso público, os artigos são de uso gratuito, com obrigatoriedade de reconhecimento da autoria original e da publicação inicial nesta revista. A revista permitirá o uso dos trabalhos publicados, incluindo direito de enviar o trabalho para bases de dados de acesso público. O conteúdo dos artigos publicados são de total e exclusiva responsabilidade dos autores.
- O(s) autor(es) autoriza(m) a publicação do artigo na revista;
- O(s) autor(es) garante(m) que a contribuição é original e inédita e que não está em processo de avaliação em outra(s) revista(s);
- A revista não se responsabiliza pelas opiniões, ideias e conceitos emitidos nos textos, por serem de inteira responsabilidade de seu(s) autor(es);
- É reservado aos editores o direito de proceder ajustes textuais e de adequação do artigo às normas da publicação.

Esta obra está licenciada com uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional.








